Vacinas: Wild, Wild World

 

Butch : Você não pode se livrar do medo. É como a Mãe Natureza: você não pode vencê-la ou escapar dela, mas pode resistir e descobrir do que você é feito.

Papo Henry : Às vezes você tem que superar seus medos para ver a beleza ao seu redor.

Tonitrus : A tempestade é uma festa!

Papo Henry : Corra, Arlo!

Ramsey : Eu odeio esses caras! Filhos de um morcego [Tonitrus], pegando um garotinho [Arlo] !

(Frases dos diálogos do filme “As viagens do Arlo”)

 

 

Acompanhar a evolução das várias etapas das 176 vacinas em fases pré-clínicas ou testes em pessoas e compreender as razões, os interesses do esforço que está sendo feito em todos os níveis é um exercício árduo, complicado técnica e conceitualmente, porém necessário para tentar encontrar um fio no novelo emaranhado que foi criado e oferecer alguma dica para reflexão e talvez alguma chave para ir além da questão das vacinas”. Este é o nosso desafio.

  1. A primeira pergunta que podemos nos fazer é se as esperanças de obter uma vacina segura e eficaz em um tempo razoável estão bem fundamentadas, um assunto que está magnetizando a atenção da maioria dos governos, da mídia, de uma opinião pública cada vez mais ansiosa, de todos os setores da economia, às custas, infelizmente, lamentamos dizer, das terapias que continuam a progredir em várias frentes e até mesmo em questões básicas evidentes para o bem-estar no sentido mais amplo dos cidadãos. O fator tempo deveria ser relativo neste contexto e ao invés está se mostrando uma prioridade. E estamos convencidos de que os riscos da pressa são pelo menos triplos: não apenas de dar à luz gatos cegos, mas também de pagar caro por produtos que de outra forma poderíamos ter obtido em condições de mercado mais vantajosas, porque sabemos que para o mercado tempo é dinheiro; depois, finalmente, de negligenciar a estrada maestra da natureza. Mas a corrida já começou e por isso não estamos aqui para discutir a parada de trens já andando. Nós simplesmente os acompanhamos em suas viagens com os meios de que dispomos.

Ilustrar o progresso das vacinas e terapias com conhecimento dos fatos é muito difícil também por causa da velocidade de geração e difusão das novidades e das breaking news praticamente diárias.

Tomemos, só para dar um exemplo, a interrupção dos testes da fase 3 anunciada em 9/9 pela empresa anglo-sueca AstraZeneca devido a um problema neurológico da medula espinhal (mielite transversa) de uma voluntária britânica, revelado pelo site americano Stat ligado ao Boston Globe com base em fontes anônimas de informação. Somente três dias após o incidente, a empresa confirmou a notícia da interrupção, de acordo com o New York Times. A mesma empresa havia emitido uma declaração conjunta algumas horas antes daquele 9/9 com outras oito irmãs da Big Pharma para afirmar solenemente seu compromisso com a segurança nos procedimentos relacionados com os testes de vacinas.

A própria AstraZeneca, mais uma vez causando uma certa surpresa, anunciou em 12 de setembro que os testes seriam retomados no Reino Unido, sucessivamente no Brasil, mas não em outros Países, por ter identificado a causa do problema que tinha surgido, mas sem revelar a natureza do problema ou como ele tinha sido resolvido. No mesmo dia, a Pfizer anunciou que havia aumentado o número de voluntários incluídos na fase 3 dos testes de 30.000 para 44.000, num esforço para diversificar os tipos de participantes e reduzir o tempo técnico para obter resultados dos próprios testes.

Vocês não acham que temos o direito de saber de ambas as empresas as razões por trás dessas decisões?  Que há um dever de ambas de exercer a máxima transparência em questões tão sensíveis? O que, além de aumentar a confiança do público nas vacinas, seria, acreditamos, no interesse das próprias empresas, dado que a notícia da interrupção dos testes pela AstraZeneca havia levantado muitas dúvidas sobre a validade do caminho percorrido até então, e até mesmo levou a OMS a dizer que não se esperava uma vacina antes de 2022, enquanto uma sombra caía sobre a segurança de todas as vacinas sendo testadas e aumentavam as dúvidas sobre a possibilidade de obter uma num futuro próximo.

“O tempo da ciência não é o tempo da pressão política” haviam se apressado em dizer cientistas de várias nacionalidades, reafirmando a primazia da razão e do bom senso, assim como uma visão equilibrada das coisas.

  1. Este é apenas um detalhe de uma história que começa no início de março, como conta o New York Times em seu podcast de 17 de agosto (https://www.nytimes.com/2020/08/17/podcasts/the-daily/trump-coronavirus-vaccine-covid.html). Uma história provavelmente movida pelos interesses eleitorais do Presidente Trump, que a partir daí teria financiado com cerca de 11 bilhões de dólares sete empresas farmacêuticas multinacionais para desenvolver uma ou mais vacinas o mais rápido possível, a serem reservadas, obviamente, em primeiro lugar para os EUA, de acordo com o lema “América primeiro”.

A manobra foi concebida após uma reunião na Casa Branca em 2 de março de 2020 entre representantes das principais indústrias farmacêuticas, que levaria no início de abril ao nascimento de uma força-tarefa chamada “Warp Speed” (velocidade extrema), um programa interagências em nível federal, associado a uma parceria público-privada. O ex-Presidente do Departamento de Vacinas da multinacional GlaksoSmithKline (GSK), Moncef Slaoui, é colocado à frente desta força-tarefa, de acordo com as revelações do New York Times (https://www.nytimes.com/2020/05/13/us/politics/coronavirus-trump-operation-warp-speed.html), enquanto o Gen. 4 estrelas Gustave F. Perna é nomeado Diretor de Operações. Perna, até então encarregado do Comando de Materiais do Exército.

Omitimos aqui o embaraçoso conflito de interesses implícito na nomeação do Slaoui, que no Brasil também leva o nome de patrimonialismo (esse fenômeno difundido aqui desde a época da descoberta do País, onde a Res Publica é confundida com interesses privados. Mas também na Itália sabemos algo sobre isso). Uma dupla (Slaoui/Perna) que então inspiraria o Presidente Bolsonaro, quando em junho ele daria uma virada autoritária, embora não operacional, à ação do Ministério da Saúde contra o coronavírus, após a demissão forçada de dois médicos competentes que entraram em conflito com o Presidente, trazendo à sua cúpula um General 3 estrelas (também especializado em logística como o americano Perna), Eduardo Pazuello. Este último se rodearia então de uma miríade de colaboradores, escolhidos entre outros militares em busca de posições e prebendas, no modelo venezuelano (este Continente americano, que nunca deixa de surpreender por sua capacidade de unir opostos aparentemente irreconciliáveis!)

Assim, nos EUA, um bilhão de dólares é dividido pela metade entre Moderna e Pfizer, enquanto outro bilhão vai para a AstraZeneca, o restante para as outras empresas que participam do esforço generoso da Administração americana. Se a preocupação eleitoral não foi suficiente para justificar tamanho financiamento a sete multinacionais privadas diferentes, com as quais os órgãos federais imagino que desempenharam o papel de comprimários, dada a desproporção de recursos e de homens, onde colocamos a questão ética, já denunciada por IppocrateOrg, de contratos de compra seguidos de financiamento de vacinas que talvez nem sequer tenham iniciado a fase de testes em humanos?

Infelizmente, o mau exemplo americano é seguido por muitos outros Países e a partir daí começa uma corrida por vacinas que se torna cada vez mais lotada e rica. É uma corrida implacável, devido principalmente ao interesse espasmódico agora criado pela pandemia, mas especialmente aos enormes recursos, incluindo recursos humanos, empregados em várias frentes, bem como aos enormes avanços em tecnologia e ciência e, espera-se, ao tempo mais rápido para encontrar uma ou mais vacinas a todo custo. Com o apoio não fácil de obter sobre um assunto tão árduo por parte da opinião pública, assustada e traumatizada pela pandemia, mas mais determinado, ao invés, pelo establishment agora disposto a fazer qualquer coisa para encontrar uma saída para esta pandemia e para derramar na economia subsídios nunca vistos nem mesmo durante a grande crise de 1929 ou no segundo pós-guerra.

E não podia faltar um apêndice diplomático e financeiro a esta corrida por vacinas, com o protagonismo da China, sempre ela, engajada em uma ampla ação para usar a vacina como cenoura, como notou mais uma vez o New York Times (https://www.nytimes.com/2020/09/11/world/covid-19-coronavirus.html), para fornecer financiamento e ajuda aos Países da América Latina, Caribe, África, Europa e Ásia e assim remediar os erros cometidos na fase inicial da pandemia.

Este fenômeno nos parece um remake na pele das pessoas da fórmula  Indy Car, aquelas corridas de carros inaugurada nos EUA, parecidas ao filme “Cars” de Walt Disney, (muito popular também no Brasil, entre outros Países), onde os carros se perseguem uns aos outros loucamente, superando-se uns aos outros em manobras arriscadas e espetaculares, feitas para satisfazer os impulsos dos espectadores por riscos adrenalínicos e para fazer ganhar os pilotos mais atrevidos, acalmando os espectadores em busca de emoções cada vez mais fortes. A suspeita se tornou ainda mais concreta quando apareceu a vacina Sputnik 5, patrocinada pelo Presidente Putin, autorizada em 11/8 e injetada em sua filha alguns dias depois em uma manobra muito midiática. Já em setembro, teria sido anunciada a fase de produção para o mês de outubro, em conjunto com o desenvolvimento da fase 3 dos testes.

Quase repetindo o sprint da corrida espacial de 1957, quando, em um distante e mítico 4 de outubro, o satélite russo Sputnik 1 foi lançado no espaço, para surpreender os Americanos, em primeiro lugar, e o mundo sobre as capacidades tecnológicas da URSS e, em seguida, iniciar a competição. Apenas 4 anos mais tarde, outra surpresa para o mundo, o astronauta Yuri Gagarin coroaria em 12 de abril de 1961 com sua nave espacial Vostok 1 o sonho dos soviéticos de ultrapassar novamente no espaço, em plena Guerra Fria, os Americanos, empurrando-os dois anos mais tarde a assumir um compromisso solene com Kennedy em 1963 para chegar à Lua até o final dos anos 60. O que aconteceu seis anos depois, quando ele e seu irmão infelizmente não estavam mais lá. Para uma dessas bizarrices da história, hoje, Robert Kennedy Jr., Advogado e Procurador, sobrinho do Presidente John, tornou-se um dos mais notórios ativistas do “no-vax” em seu País, assim como um apoiador do Grupo “Médicos e Cientistas pela Verdade”. Tout se tient, daria para dizer se acreditássemos nos magníficos e progressivos destinos da história.

Além dos casos cubano e argentino, dos quais falaremos mais tarde, queremos dizer que percebemos nesta corrida por vacinas o cheiro de uma competição ditada por motivações primeiro políticas, depois econômicas, depois de prestígio, ligadas entre si, sob a bandeira de um unilateralismo/empreendedorismo desenfreado, que é exatamente o oposto do multilateralismo de cooperação que nós, ao invés, defendemos como forma mais evoluída de civilização e integração quando respeita a res pública, os direitos de cidadania, os interesses, bem como o futuro das respectivas populações, especialmente as mais vulneráveis aos processos de integração e globalização, hoje cada vez mais interligadas e semelhantes em suas necessidades, em suas expectativas de decência na gestão do Estado e talvez até de desenvolvimento.

Unilateralismo que, coincidencialmente, é estimulado precisa e principalmente pelos membros do chamado Conselho de Insegurança das Nações Unidas, representados de diversas maneiras por Governos ou multinacionais das cinco impotências (diante do vírus, é claro) que podem ser reconduzidas de diversas maneiras a elas, com o corolário de outros que são ansiosos por algumas cadeirinhas extras naquele fórum, como acontece na batalha sempre aberta  e anacrônica por uma ampliação do Conselho de Segurança, na qual o Brasil continua a participar com a total convicção de que tem pleno direito a participar da competição.

  1. Seguimos então as principais etapas desta corrida nacional por vacinas: em junho de 2020, o Ministério da Saúde brasileiro assina um contrato de US$ 127 milhões para a entrega de 30,4 milhões de doses de vacinas da AstraZeneca, com o anúncio de que um primeiro lote seria distribuído em dezembro de 2020 e um segundo em janeiro de 2021. Outros contratos o Governo brasileiro assinaria, nas semanas seguintes, com empresas e Instituições científicas chinesas (Sinovac, Fosun, Sinopharm, Beijing Institute, CanSino Biologics, Beijing Institute of Biotechnology), Governo chinês, Moderna e National Institute of Health (americano), Gamaleya Research Institute (russo), Murdoch Children Research Institute (australiano), Janssen Pharmaceutical Companies (controladas pela americana Johnson & Johnson).

A Comissão Européia assinou um contrato de 400 milhões de euros com a AstraZeneca em 14/8 para a compra de 300 milhões de doses de vacina, mais uma opção de compra de mais 100 milhões de doses. A própria Comissão da UE havia assinado anteriormente acordos similares com a Sanofi (francesa) -GSK (GlaxoSmithKline, multinacional) e a Johnson & Johnson).

O dia 15/9 outro anuncio por parte do Governo alemão: financiamentos por 750 milhões de Euros para três empresas alemãs para celerar a preparação de uma vacina: 252 ml. a CureVac, 375 a BioNTech, 123 a IDT Biologic.

O dia 16/9 a Comissão EU informou sobre a assinatura de outro acordo com as multinacionais Sanofi e GSK para o fornecimento de até 300 milhões de doses de uma vacina contra o Covid-19, enquanto outros acordos estão sendo negociados com outras empresas.

  1. Mas chegamos à questão específica da natureza das vacinas em preparação. Existem 9 vacinas (de 176 em todo o mundo) que atingiram a fase clínica 3 e, portanto, poderiam estar disponíveis nos próximos meses: quatro delas são feitas na China, três nos EUA, uma na Rússia e uma na Austrália. 139 delas estão na etapa pré-clínica, o que significa de testes moleculares-biológicos e em animais, que precede as três primeiras fases de testes em humanos propriamente ditas.

Segundo o Prof. Sergio Abrignani, Professor de Patologia da Università Statale de Milão e Diretor do Instituto de Genética Molecular “Romeo e Enrica Invernizzi” (ver courier.it de 7/9/2020), “a fase 3 pode durar de 6 meses a vários anos e consiste em administrar a vacina a 30-40 mil pessoas, que são então comparadas com um grupo de controle não vacinado. O número de infecções com a doença deve ser significativamente menor do que o registrado entre os outros voluntários não imunizados”.

O próprio Prof. Abrignani expressou dúvidas sobre a possibilidade de algumas das chamadas “finalistas” poderem concluir a fase 3 até 2020, mas não excluiu que em alguns Países e para categorias específicas, procedimentos de aprovação “de emergência” para a produção e administração de vacinas possam ser seguidos, como já aconteceu no caso de Sars-Cov-2. De acordo com um procedimento normal, a produção “começa somente após um teste final de segurança e eficácia”. É provável que a vacinação universal da população só comece com dados sólidos sobre grupos muito grandes e heterogêneos”.

Segundo fontes da imprensa, duas ou três vacinas já foram aprovadas pelo Governo chinês para uso emergencial limitado ao pessoal de risco, ou seja, aquele dos setores da saúde, militar e da administração pública. As Autoridades chinêsas informaram o dia 15/9 que uma vacina estaria pronta para o próximo mês de novembro. Cuba também anunciou, em meados de agosto, que tem uma vacina em desenvolvimento avançado.

Neste cenário não exatamente encorajador, registramos uma notícia interessante da Argentina através do Dr. Hugo Lujan, bioquímico, professor da Universidade Católica de Córdoba, pesquisador, diretor do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Imunologia e Doenças Infecciosas, que informa em uma entrevista dada a uma TV argentina, sobre a etapa pré-clínica em que encontra-se uma vacina oral contra a Covid-19 como prosseguimento de outra vacina contra a gripe desenvolvida no ano passado por sua própria equipe (também com base na vasta experiência no campo da criação de animais, sendo a Argentina um grande produtor de carne. Pode interessar ao leitor que a primeira vacina – e o próprio nome deste tipo de descoberta – na história da humanidade foi a vacina contra a varíola em 1798 pelo britânico Edward Jenner, que se baseou na observação das vendedoras de leite, que estavam infectadas com varíola bovina. Sua intuição foi justamente infectar trabalhadoras saudáveis, usadas como cobaias, com pústulas extraídas de feridas de vacas, causando reações que levaram à sua imunização. Daí o nome dado à vacina “variolae vaccinae”, ou varíola de vaca. Nrd)

A vacina argentina é, portanto, um produto que, pelo menos no estágio de laboratório, tem vantagens significativas sobre as vacinas injetáveis que são praticamente todas as outras até agora na lista de espera e que reuniremos para simplificação em uma única categoria. O primeiro tipo de vacina, tomada oralmente, assegura essencialmente um escudo de superfície corporal, impedindo que o vírus invada nosso corpo através das mucosas, ao contrário da outra categoria de vacinas que permite que o vírus penetre e depois o combata com base na geração de anticorpos no sangue e no espaço intersticial.

As vacinas da segunda categoria que levantam maiores reservas são aquelas que utilizam DNA/RNA e outros vírus portadores injetados no braço sob a pele, causando efeitos colaterais não negligenciáveis, tais como reações hiperinflamatórias, etc., e têm uma eficácia mais limitada do que a vacina oral e, portanto, um custo/benefício mais baixo.

Para dar um exemplo sobre a maior conveniência da vacina oral, e aqui apelo às frequentes e interessantes conversas que tive nos últimos dias com o Dr. Bertoglio, meu tutor e co-coordenador para a América Latina de IppocrateOrg, podemos recorrer a uma analogia com a função dos cães de guarda em uma casa, pois ela permite a ativação de três ao mesmo tempo: um no corredor (IgM em sangue), outro (IgG no espaço intersticial) na sala e outro no portão (IgA nas mucosas) que controla a parede externa, sempre com o cuidado de avisar seus dois companheiros, antes de tudo quem está mais próximo da defesa do lugar a proteger, fisiologicamente quase sempre vencendo. Quando o cão de guarda IgA tem problemas e precisa de ajuda, seu companheiro IgG se duplica e um seu dublê salta pela janela da sala e corre para seu resgate, enquanto o terceiro do grupo, IgM, nunca deixa seu posto da segunda linha no corredor. Caso o invasor consiga entrar naquela casa (por exemplo, pelo telhado ou chaminê), o IgM geralmente consegue derrotar o invasor ou tem a garantia de que o dublê IgG de seu parceiro entrará em ação no caso de um ataque adicional for necessário.

O desenvolvimento filogenético (isto é, das espécies) e ontogenético (isto é, individual) evolutivo deste sistema de sobrevivência da humanidade vem ocorrendo há milhões de anos e é, portanto, um resultado consolidado. O treinamento desses três cães, obtido através do uso da vacina oral, é livre de estresse, pacífico e totalmente específico: com ela os cães aprendem a reconhecer e eliminar somente aqueles invasores que estão armados e se comportam agressivamente com os habitantes e objetos da casa. Sem causar danos colaterais à casa e ao meio ambiente, que eles protegem.

No segundo caso, o das 176 vacinas em gestação, que serão injetadas sob a pele ou intramuscularmente, quando o organismo humano é infectado pelo vírus, há uma ativação excessiva e não imediata das defesas quase só de IgG e células linfóides (resposta imune secundária e subseqüente), mas depois que o vírus já passou pelas mucosas, ele circulou no sangue e entrou nos diferentes órgãos: é como se aquele cão da casa (os anticorpos IgG) estivesse agora sozinho escondido na sala e deixando o agressor entrar até o último canto da casa, podendo ele pode já ter destruído muitos objetos de valor antes de latir e morder.

É obvio que este tipo de imunidade não seja o ideal.

Um segundo problema com este tipo de vacina é que ela usa substâncias complementares (coadjuvantes) para que todo o sistema imunológico reaja mais intensamente, ativando respostas multiespecíficas e hiperinflamatórias, contra milhares de outros agressores potenciais que estão na memória imunológica há algum tempo, seja por infecção ou por outras vacinas passadas, mas que não estão ativos no momento da vacinação.  Enquanto apenas um deles é o inimigo a ser abatido (os antígenos específicos do vírus SARS-CoV-2), arriscando-se assim a produzir danos aos órgãos saudáveis ou debilitados pela patogênese anterior, desencadeando reações cruzadas de confusão de imunoregulação, como ocorreu no caso da paciente britânica, o que fez com que o AstraZeneca parasse o teste e depois o retomasse após alguns dias.

É como se este tipo de vacina, novamente assimilada a um cão de guarda, usado para defender a casa contra outros tipos de agressores, fosse então treinado para reconhecer e atacar um novo agressor, de modo que ele deve primeiro morder muitas pessoas desconhecidas que passam por acaso, à noite, nas proximidades daquela casa, cujas características foram alteradas nesse ínterim pelos componentes da vacina, o que causa grande confusão em sua capacidade de reconhecer o agressor e a capacidade de responder à agressão, que se torna máxima e portanto desproporcional. Este comportamento pode gerar danos colaterais, causando uma resposta contra outras estruturas biológicas, tais como a medula espinhal do voluntário britânico.

Este segundo modo de reação da vacina (incluindo os aspectos financeiros e de mídia envolvidos) me faz fazer algumas analogias, mutatis mutandis, com a escolha dos Americanos para combater os inimigos no Vietnã, Afeganistão, Iraque: você escolhe os monstros, “massageia” a opinião pública, envia tropas para abundância, gasta trilhões de dólares e depois se retira sem nenhum resultado. Pelo contrário, com o moral em pedaços, finanças públicas também e a imagem de superpotência destruída. Infelizmente para nós que não são antiamericanos e gostariam que eles fossem aliados. Daí talvez a necessidade de pensar primeiro na América. Mas por necessidade, não por escolha.

Portanto, o primeiro tipo de vacina age de forma completamente alternativa e mais natural, podendo durar muito mais que seus concorrentes, expostos ao risco de causar danos colaterais, durar pouco tempo e, portanto, revelar-se menos eficaz, além de ser evidentemente mais caros, tendo que ser administrados em alguns casos em mais ou repetidas doses.

A estas diferenças se somam outras, que favorecem a versão argentina da vacina oral: sua difusão através das mucosas da boca, que são conhecidas por serem mais eficazes na geração de imunoglobulinas A (dirigidas aos tecidos superficiais), G (dirigidas ao espaço intersticial) e M (dirigidas ao sangue), já que as vacinas concorrentes geram apenas imunoglobulinas G e M.

Além disso, a vacina oral está livre dos riscos e custos do uso de seringas e agulhas, que podem causar infecções e, portanto, é mais econômica, mais prática em termos de administração do que seus concorrentes, podendo ser distribuída muito mais rapidamente em clínicas notoriamente superlotadas, se considerarmos a situação precária em que se encontra a maior parte da rede de saúde pública tanto nos Países do Continente americano, como em muitos Países do Sul e Leste Europeu, para não mencionar os do Terceiro Mundo ou da Ásia, embora emergentes.

Por último, mas não menos importante, a vacina argentina é totalmente financiada pelo Estado argentino e a patente será de sua propriedade, o que garantirá custos muito baixos de produção e comercialização, assim como garantias superiores de controles.

Fascinante, não é?

  1. Mas por que as perguntas que nós fizemos não foram levantadas pelos poderosos participantes da reunião na Casa Branca em 2 de março passado ou na Comissão da UE ou nos vários Governos antes de decidir qual vacina escolher, talvez lembrando os diálogos do filme italiano “A viagem de Arlo”. O ditado latino que diz que “Natura non facit saltus” a história do Jenner e das vacinas e que quanto mais você respeita os mecanismos biológicos e menos manipula o DNA, mais seguro o caminho e mais conveniente a saída para todos?

Esperamos obviamente que uma ou mais vacinas estejam disponíveis para o maior número de pessoas possível, com a maior segurança, eficácia e duração possível em termos de defesas imunológicas, no menor tempo possível. O cálculo do custo-benefício só poderá ser feito em uma data posterior.

  1. Enquanto aguardamos os desenvolvimentos sobre todas essas questões e talvez outras que possam surgir, nós fazemos uma série de outras perguntas, que achamos que seria útil vincular à questão das vacinas, pois devemos sempre respeitar as regras da boa governança quando falamos de políticas públicas. Estas regras exigem, ao nosso modo de ver, que elas visem a proteger, além daquelas estritamente técnicas que mencionamos, as outra ligadas ao chamado custo/benefício, no sentido de questionar se faz sentido que 176 vacinas sejam testadas ao mesmo tempo.

Gostaríamos também de assegurar que a questão das vacinas seja sempre colocada num quadro mais amplo: por exemplo, o da democracia, ou seja, da transparência da informação, e aqui estamos bastante preocupados com os procedimentos dos regimes autoritários que escapam, talvez em parte, dos controles das autoridades sanitárias internacionais, da mídia livre e da opinião pública igualmente livre. Portanto, somos epidermicamente cautelosos com aqueles Países que não oferecem garantias destes pontos de vista porque não são democráticos.

Então, é claro que continuaremos a defender a questão do custo/oportunidade, ou seja, quantas outras coisas poderiam ter sido feitas canalizando, ainda que parcialmente, os recursos investidos em vacinas, em projetos de cooperação internacional ou políticas nacionais?

Tudo isso na tentativa de propor, mutatis mutandis, uma abordagem holística para a questão das vacinas, como por exemplo o Dr. Soresi faz na “entrevista concedida a IppocrateOrg e publicada separadamente no site, quando trata da saúde das pessoas, citando seu caso pessoal de paciente com Covid-19 e com a idade avançada de 82 anos, bem mantida a julgar pela foto que acompanha a entrevista, graças a um estilo de vida que é um exemplo a imitar. Mas é também o produto de uma cultura que, juntamente com a ética de Ippocrate, são dois dos elementos fundadores do nosso Movimento, um grupo de sonhadores com os pés no chão, como disse o médico chileno, meu special advisor em assuntos técnicos, em uma recente peroração de adesão.

  1. Para justificar o título deste editorial sobre as loucuras pró-vax causadas pela pandemia no mundo, lembro de uma sugestiva série Netflix (Wild, Wild Country), dedicada à utopia de uma comunidade hippy que se estabeleceu em um local remoto no Oregon (que foi até renomeado Rajneeshpuram em homenagem ao seu Guru), entre 1980 e 1985, e chegou a cerca de 20 mil habitantes, a maioria de classe média e com escolaridade alta, sob a orientação magnética de um Guru indiano, mais conhecido como Osho, que construiria do nada uma extraordinária e eficiente cidade-comunidade do Sol e da Alegria, uma mistura de espiritualismo e hedonismo não-consumista explicada pela cultura hippy daqueles anos. A experiência durou pouco tempo entre mil dificuldades e ousadas experiências porque, em vez de se contentar com uma vida isolada e discreta, sem se achar demais, ela quis desafiar com seu estilo pouco ortodoxo o da comunidade de cerca de 5 mil habitantes da cidade que eram hostis à seita e ao seu estilo de vida e em grande parte conservadores do noroeste americano.

Que, de fato, se voltou contra “os intrusos”, chegando ao ponto de usar armas para intimidá-os no melhor estilo do faroeste e encontrar, lamentavelmente, uma revirada. Mas as causas do fracasso da utopia foram mais amplas: havia uma contradição fundamental entre os sermões e o estilo de vida do Guru e do pequeno grupo encarregado da gestão da cidadela, cada vez mais devorado pelo materialismo, pelas drogas e pelos jogos de poder (Rajneeshpuram = “A Revolução dos Bichos” de Orwell), por um lado, e as expectativas e práticas da maioria dos outros participantes desta experiência sui generis de um novo mundo, por outro, que colidiam com o projeto inicial.

Finalmente, houve também práticas administrativas e financeiras ilegais por parte daquele “círculo restrito”, usadas pelo Congresso e pelas instituições americanas, instadas pela pequena comunidade local wasp contra a utopia, para formular uma série de acusações administrativas, criminais e fiscais e depois forçar primeiro uma fuga precipitada do Oregon para outros Estados americanos em menos de 48 horas, em dois aviões particulares, Osho e todos seus executivos, depois a rápida expulsão dos estrangeiros para outros Países, levando Osho a retornar à Índia, onde teria morrido em 1991, com apenas 59 anos de idade.

Suas teorias continuam a ser ensinadas a Puna na Índia e até mesmo gerar saudade (até mesmo no Rio de Janeiro) por alguns de seus antigos apoiadores, que ainda reclamam de sua manipulação por seus colaboradores diretos (sem o conhecimento da maioria dos seguidores) e pelas próprias Autoridades e se perguntam se a América não seria um País melhor hoje, se essa experiência não tivesse sido poluída na raiz por seus próprios criadores. Sic transit gloria mundi!

IppocrateOrg é felizmente vacinada contra estas tentações.

Mario Panaro, Ex-Cônsul Geral no Rio de Janeiro

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